Em meio à crise financeira declarada tanto pelo governo de Mato Grosso do Sul quanto pela Prefeitura de Campo Grande, contribuintes terão menos benefícios e menos tempo para pagar impostos em 2026. A antecipação da data-limite para pagamento à vista do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), e a redução pela metade do desconto para quem quitar o Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) de forma integral indicam uma tentativa de reforçar o caixa em um momento de ajuste fiscal e cortes de gastos.
De um lado, o governador Eduardo Riedel reduziu o prazo para pagamento à vista do IPVA, o vencimento foi antecipado para o dia 5 de janeiro de 2026, quase um mês antes do que ocorreu neste ano, quando o pagamento em parcela única com desconto poderia ser realizado até 31 de janeiro. Além disso, o desconto para quem pagar de forma integral será de 15%, porcentual que se mantém o mesmo de anos anteriores, mas agora com menos tempo para o contribuinte se organizar.
Na Capital, a mudança foi ainda mais drástica, a prefeita Adriane Lopes reduziu pela metade o desconto para o pagamento à vista do IPTU. O abatimento, que era de 20%, caiu para 10%. A medida, publicada no Diário Oficial de ontem, tem impacto direto no bolso de quem costuma quitar o imposto logo no início do ano para garantir o benefício.
Segundo o mestre em Economia Eugênio Pavão, ouvido pela reportagem, a diferença é significativa. “Imaginando um IPTU de R$ 2 mil, à vista, sairia por R$ 1,8 mil. Agora o valor será de R$ 1,9 mil, aumento de R$ 100 no valor”, explica.
SELIC
Mesmo com a alta dos juros, para os especialistas entrevistados, ainda compensa pagar à vista os impostos. Pavão pondera que, apesar da alta dos juros, ainda pode compensar pagar à vista, considerando as projeções para o próximo ano.
“Para 2026, a expectativa é de que a Selic feche em 12,5%, sendo a poupança e a LCI e a LCA isentas de imposto de renda. E mesmo o Tesouro e demais aplicações sujeitas a IR ainda tornam vantajoso o pagamento à vista, porque as aplicações devem começar a cair já no primeiro semestre de 2026, com reduções graduais até chegar ao patamar de 12,5%”, diz, e completa.
“Na poupança, o rendimento anual é de 7,28% com a Selic a 15% ao ano. No Tesouro Selic, o rendimento anual é de 11,1%, e na aplicação em CDB o rendimento anual é de 11,3%. Já as letras agrícolas e imobiliárias [LCA e LCI] rendem 11,31% ao ano”, detalha.
O economista Eduardo Matos acrescenta que a decisão de pagar à vista ou de parcelar deve levar em conta o contexto financeiro pessoal de cada contribuinte.
“Analisando friamente, podemos dizer que sim, investir o dinheiro em um ativo que remunera Selic e mais alguma coisa, ou então IPCA e mais alguma coisa, tende a ser mais interessante. No entanto, precisa levar em conta o fluxo de caixa do cidadão. Se ele tem saldo devedor, de nada adianta ganhar juros de um lado e pagar juros maiores do outro”, avalia.
Para ele, o cenário de aperto fiscal dos governos também deve ser considerado. “Em muitos casos, é mais interessante utilizar esse recurso para quitar logo o IPTU ou o IPVA e livrar o fluxo de caixa, que é uma variável importante. O IPTU e o IPVA estão dentro dessa seara. E, como eu disse, em alguns casos é mais interessante parcelar e empregar o recurso de modo a se autorremunerar, mas depende da situação do cidadão”.
APERTO FISCAL
As mudanças tributárias ocorrem em um contexto de ajuste fiscal declarado pelo governo estadual e pela administração municipal. Em setembro, o governador Eduardo Riedel admitiu a existência de uma crise nas finanças públicas e anunciou corte de 25% no custeio da máquina administrativa. A decisão foi justificada pela desaceleração da arrecadação e pela pressão dos gastos obrigatórios.
O principal problema citado pelo governador de Mato Grosso do Sul foi a queda da arrecadação oriunda da nacionalização do gás natural que entra no Brasil por Corumbá. O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o gás, que já representou
R$ 1 bilhão em recursos, caiu para menos da metade do montante.
Na Prefeitura de Campo Grande, o cenário é semelhante. A prefeita Adriane Lopes prorrogou por mais 90 dias o decreto de corte de gastos, o que inclui restrições em contratos e despesas com pessoal. Em outubro, a gestão reduziu o expediente dos servidores municipais para seis horas diárias, com o objetivo de economizar energia e conter despesas operacionais.
Essas medidas, somadas à retração da atividade econômica, ajudam a explicar o endurecimento na cobrança de tributos. A antecipação de prazos e a redução de descontos tendem a garantir entrada de recursos mais cedo nos cofres públicos, aliviando temporariamente o caixa e reduzindo a dependência de empréstimos ou repasses.
METAS
O esforço fiscal de Estado e Município afeta diretamente as previsões orçamentárias de 2026. Conforme a Lei Orçamentária Anual (LOA) aprovada pela Câmara Municipal, a Prefeitura de Campo Grande espera arrecadar R$ 1,069 bilhão com o IPTU no próximo ano. Já o projeto de LOA do governo do Estado, que ainda tramita na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do sul (Alems), prevê uma arrecadação de R$ 1,190 bilhão com o IPVA em 2026.
Os dois tributos representam parte importante da receita própria dos governos e são considerados estratégicos para a manutenção de serviços essenciais e o equilíbrio fiscal. Em um cenário de contenção de despesas e queda de repasses federais, aumentar a eficiência da arrecadação se torna a principal alternativa de sobrevivência financeira para as administrações locais.
Na prática, o contribuinte campo-grandense e o sul-mato-grossense começa 2026 com menos fôlego financeiro. A soma do reajuste natural dos valores venais dos imóveis, da manutenção das alíquotas do IPVA e da redução dos incentivos para pagamento à vista coloca mais pressão sobre o orçamento das famílias.
Matos ressalta que o raciocínio muda quando o contribuinte já está endividado. “Se esse recurso tem impacto no fluxo de caixa, é mais interessante empregá-lo nas contas em que se está devendo ou que vá dever”, finaliza.


