“O governo húngaro oferece bolsas de estudo para estudantes brasileiros”

Pela primeira vez em Mato Grosso do Sul, o embaixador da Hungria no Brasil fala dos intercâmbios educacionais e culturais e também das possibilidade de cooperação
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Em sua primeira visita a Mato Grosso do Sul, o embaixador da Hungria no Brasil, Miklós Tamás Halmai, esteve em Campo Grande, onde cumpriu agenda institucional.

A passagem pelo Estado incluiu encontros com representantes do setor produtivo, da educação e da cultura, além de visitas a instituições de Ensino Superior.

Durante a entrevista, o diplomata abordou o atual estágio das relações entre Brasil e Hungria, as perspectivas de cooperação econômica e os possíveis desdobramentos do acordo entre Mercosul e União Europeia.

Também comentou as oportunidades de intercâmbio cultural e destacou o potencial de aproximação entre Mato Grosso do Sul e seu país em áreas como agricultura, indústria e turismo.

Um dos principais enfoques da conversa foi a área educacional. Halmai detalhou o programa de bolsas de estudo oferecido pelo governo húngaro a estudantes brasileiros, especialmente em nível de pós-graduação, e ressaltou que o Brasil está entre os países com maior número de vagas disponíveis.

Segundo ele, o intercâmbio acadêmico é um dos instrumentos mais eficazes para fortalecer relações de longo prazo entre as duas nações.

É a primeira vez do senhor em Mato Grosso do Sul. Para começar, como o senhor avalia hoje as relações entre Brasil e Hungria?

As relações entre os dois países estão em uma condição boa. O último ano foi muito frutífero, com dois encontros de alto nível. Tivemos consultas políticas, em Budapeste, entre representantes do governo federal brasileiro e do governo húngaro.

No fim do ano, depois de seis anos, a Comissão Mista de Assuntos Econômicos dos dois países voltou a se reunir.

Tratamos de vários temas da cooperação econômica, envolvendo diferentes áreas de governo, e identificamos possibilidades concretas para desenvolver as relações e dar os próximos passos na parceria entre Brasil e Hungria.

Houve avanços concretos nessa área econômica?

Sim. Durante a reunião da comissão mista, discutimos diferentes setores e oportunidades. Também já há presença de produtos húngaros no Brasil, inclusive em áreas específicas como a de segurança.

O objetivo agora é aprofundar essa cooperação, ampliar contatos empresariais e incentivar novos investimentos.

Mato Grosso do Sul tem forte vocação agropecuária. O Estado importa máquinas agrícolas da Hungria. Como é o setor agrícola húngaro?

A Hungria tem um setor agrícola bem desenvolvido. Produzimos, pelo menos, duas vezes mais do que consumimos internamente. É um setor moderno, com empresas inovadoras.

Ao mesmo tempo, sabemos que o Brasil, e especialmente Mato Grosso do Sul, tem um agronegócio muito forte. Tenho certeza de que podemos aprender muito uns com os outros, estabelecer contatos, trocar experiências e até realizar investimentos conjuntos.

Quais são os principais produtos agrícolas da Hungria?

Produzimos trigo, milho, girassol e óleo de girassol, entre outros grãos. Temos também um setor forte de leite e derivados. Exportamos esses produtos para diversos mercados. Além disso, produzimos frutas e vegetais. Naturalmente, a escala é diferente da brasileira.

Somos um país de cerca de 10 milhões de habitantes, com território de aproximadamente 93 mil quilômetros quadrados, mais ou menos o tamanho do estado de Santa Catarina. Mas, dentro da nossa dimensão, o setor é bastante estruturado e relevante para a economia.

A Hungria negocia no contexto da União Europeia. Como o senhor vê as perspectivas do acordo entre Mercosul e União Europeia?

Tenho certeza de que, no longo prazo, o acordo pode trazer ganhos importantes. Existem algumas reservas por parte de determinados governos europeus, mas acredito que, se essas questões forem tratadas, o acordo poderá avançar.

Ele pode beneficiar tanto a indústria quanto os serviços, ampliando as oportunidades de exportação e de investimentos.

O Brasil poderá exportar mais para a Europa, e empresas europeias também poderão investir mais no Brasil.

Com maior competição, as indústrias tendem a se tornar mais eficazes e competitivas. No fim do dia, o maior beneficiário deve ser o cidadão comum.

Além da economia, a cultura é um ponto forte da Hungria. O senhor acredita que o acordo e a aproximação política podem estimular também o intercâmbio cultural e turístico?

Tenho certeza de que sim. O Brasil tem muitos laços históricos e culturais com países europeus. No caso da Hungria, há uma comunidade de cerca de 100 mil descendentes vivendo no Brasil, principalmente na região Sul e em São Paulo. Esses laços ajudam a fortalecer as relações.

Acredito que podemos ampliar o intercâmbio turístico permitindo que mais brasileiros conheçam a Hungria e que mais húngaros descubram o Brasil. O Brasil é um país fantástico, com muitos lugares atrativos, como o Pantanal e Bonito, que pretendo conhecer nesta visita.

Quais são suas primeiras impressões sobre Mato Grosso do Sul?

Ainda estou conhecendo o Estado. Mas já me preparei antes de vir e tenho a impressão de que é um estado extremamente interessante. Tem natureza, indústria, agricultura, serviços e cultura. É uma mistura muito interessante. Cumpro uma agenda intensa de encontros oficiais e vou conhecer Bonito. Ao final da visita, espero ter uma imagem ainda mais completa.

Na área educacional, existem programas de intercâmbio entre os dois países?

Sim, existem programas estruturados. O governo húngaro oferece bolsas de estudo para estudantes brasileiros, principalmente em nível de pós-graduação.

O programa contempla áreas como medicina, agricultura, veterinária, tecnologia, engenharia e outras. O Brasil tem uma das maiores cotas de bolsas disponibilizadas pela Hungria, com cerca de 250 estudantes por ano.

Essas bolsas cobrem estudos em universidades húngaras e representam uma oportunidade importante para jovens brasileiros ampliarem sua formação acadêmica em um ambiente europeu.

Por isso, estamos visitando universidades estaduais e federais aqui no Estado e também dialogando com autoridades da área de Educação, para divulgar essas possibilidades.

O intercâmbio estudantil é um caminho muito eficaz para estabelecer relações duradouras entre países.

Quando um estudante passa alguns anos em outro país, ele cria laços culturais, acadêmicos e até profissionais. Isso contribui para uma cooperação de longo prazo, que vai além dos governos e das conjunturas políticas.

A música é uma marca importante da cultura húngara. O senhor poderia explicar o que é o método Kodály?

O método Kodály é uma forma de educação musical desenvolvida na Hungria. A ideia central é que a música deve fazer parte do nosso dia a dia. A educação musical deve começar muito cedo, ainda na infância, e caminhar junto com a alfabetização.

Nas escolas públicas da Hungria, as aulas de música são obrigatórias por dez anos. O método se baseia principalmente no canto. Primeiro, precisamos saber usar bem a nossa voz e o nosso corpo. Se conseguimos reproduzir sons com o próprio corpo e cantar bem, depois será mais fácil aprender instrumentos.

Outro princípio importante é que a música deve ser acessível a todos. Não pode ser algo exclusivo, precisa ser inclusivo. Uma população que canta é, segundo essa visão, uma população mais feliz e mais madura.

A expectativa é de que essa visita resulte em novas parcerias?

A expectativa é de fortalecer contatos e de abrir caminhos para a cooperação futura. Minha agenda inclui reuniões com representantes da indústria, do setor rural, da educação e da cultura. São encontros importantes para identificar interesses comuns e oportunidades específicas.

A Hungria é um país pequeno, mas com tradição cultural significativa e setores econômicos bem estruturados. Mato Grosso do Sul, por sua vez, é um estado com grande potencial na agricultura, na indústria e no turismo.

Ao aproximar instituições, empresários e universidades, criamos condições para que surjam projetos concretos, seja na área econômica, educacional ou cultural.

Além disso, a visita também tem um caráter simbólico. É a primeira vez que venho ao Estado, e conhecer a realidade local é essencial para que possamos construir pontes mais sólidas. Acredito que, a partir desses encontros, poderemos avançar em parcerias que tragam benefícios para ambos os lados.

{Perfil}

Miklos Tamás Halmai é embaixador no Brasil desde 2023. Antes, foi embaixador de seu país em Portugal, entre 2019 e 2023. Concomitantemente, Halmai é o embaixador credenciado a outros países da América do Sul, onde a Hungria não tem representação diplomática.

 

 

 

 

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